12 outubro 2010

sala de embarque


Amanda e Paulinho namoram há dois anos. Já adquiriram avançado grau de intimidade. Trocam beijos de língua entre garfadas de pizza nas noites de domingo. Viajaram juntos para Itacaré e Bariloche e agora estão a caminho da Europa, ambos pela primeira vez, nova e eternamente juntos, até que a morte os separe. Chegaram ao aeroporto com duas horas de antecedência. Dona Sílvia, mãe de Amanda, adora um aeroporto. Gosta de se imaginar sentindo a ansiedade das pessoas prestes a perder o voo e gosta mais ainda de olhar a vitrine da butique que, entre outros artigos importados, vende perfumes franceses e óculos escuros da Prada. Arrastando o marido, Afonso, por entre prateleiras e prateleiras de muamba, deixa escapar frases como "ai, Fon, essa camisa ficaria linda em você" e, logo em seguida, como se apenas desse asas à imaginação, "e esse óculos? Imagina a gente chegando no clube para almoçar, você com a camisa e eu de óculos novo...". Ele sorri e desconversa, o olhar perdido na vendedora de produtos de beleza femininos. "No exterior é mais barato", argumenta, "vou lhe dar de presente quando formos pra Nova Iorque". Saem da loja de mãos vazias e a cabeça borbulhando de devaneios - sonhos de consumo e flashes de filmes pornô.

Amanda e Paulinho os esperam diante da entrada para os portões de embarque, ela pendurada nele, fazendo o gênero venho-tanto-a-Cumbica-que-nem-vejo-graça. Emburrada, cumprimenta os pais com um amistoso "aonde é que vocês se enfiaram? Estamos plantados aqui há vinte minutos!". Para orgulho dos progenitores, foi tratada desde pequena como o centro do mundo: "estudou em colégio particular e levou duas empregadas à loucura", gabou-se uma vez Dona Sílvia. Justificando-se, derretida, a mãe enfatiza a primeira sílaba do vocábulo importado, "a fila
check in estava enorme. Pensamos que ia demorar". Amanda desacredita, bufa e o genro contemporiza, aproveitando a deixa, "olha lá, amor, depois você reclama que está com saudade da comidinha dela". O sogro ri da piada e toma a iniciativa da despedida. Abraços, beijos, divirtam-se, promessas de presentes e o casal desaparece. Ainda acenando em vão, Dona Sílvia apaga com o lenço uma furtiva lágrima - o clímax de uma ópera suburbana.

Diante do portão de embarque, o casal depara-se com a multidão de brasileiros que contamplam a atordoada movimentação dos funcionários da companhia aérea. Amanda se desanima. Não havia espaço para gente feia nos sonhos recorrentes das últimas semanas. A decepção se mescla à irritação, "ai, que povinho feio", e Paulinho come a bronca, "se você tivesse aquele cartão preto a gente esperava na sala vip e não no meio desse monte de jean charles". Acostumado com os rompantes da esposa, limita-se a apontar para dois assentos vagos, "ali tem lugar. Vem sentar, amor". Aos seus olhos apaixonados de novela das seis, a miséria de espírito se confunde com a graça das crianças que protestam por um pouco de carinho. Senta-se e acomoda a bagagem de mão ao seu lado. "Toma cuidado para não encostar nessas sacolas imundas, Paulinho", recomenda Amanda. Cumprindo a instrução, recosta a cabeça no ombro dela. Ficam em silêncio, contemplativos.

Uma ideia numa cabeça acostumada com pagode e kinoplex tem duração breve, pouco mais de 2 minutos. "Deixa eu ver as espaldas do urso", sussurra Amanda ao ouvido do maridão. Paulinho inclina o corpo para frente, permitindo que ela levante a camisa e examine suas costas. "Com cuidado para não machucar, amor". Amanda coloca os óculos de grau e inicia a cirurgia. "To com água na boca", confessa enquanto espreme uma espinha cor de manteiga. Saca uma caixa de lenços da bolsa e limpa as unhas dos polegares antes de cavocar a omoplata de Paulinho, em busca de um pelo encravado. "Ai, ai, amor!", protesta Paulinho, afastando as costas das mãos da algoz. "Calminha, urso, que a coisa aqui tá feia. Vem com a mamãe". Ele exige uma bitoca antes de se doar novamente ao tédio churdo da esposa. Amanda segue firme na limpeza. Prende a língua entre os dentes e aperta os olhos em momentos mais críticos. Paulinho esboça uma expressão de dor e logo volta a ruminar um devaneio obscuro.

Dez minutos depois, uma aeromoça finalmente anuncia o início do embarque. "Ufa. Vambora, amor, que atrás vem gente!". Os dois se apressam para não perder um bom lugar na fila. As férias estão só começando e o velho mundo os espera.

06 outubro 2010

7 de setembro


Ontem, lembrei-me de uma pouca e boa deste nosso Brasil. Mas antes de contar devo me desculpar pela demora em escrever. Acontece que as discussões políticas no facebook estão em alta, e não consigo conter o ímpeto de comentar certos comentários irônicos e superficiais. Para usar uma analogia digna do nosso Presidente Lula, política em tempo de eleição pode ser como jogo de final de campeonato. Mas vamos ao fato...

De todas as capitais brasileiras, a capital do Brasil, este alphaville chamado Brasília, deve certamente possuir o título de melhor parada militar do País. Nunca tive a oportunidade de exercitar o espírito cívico numa manhã de sete de setembro brasiliense, mas, a julgar pela quantidade de pacotes de salgadinho e latas de refrigerante abandonados na rua, o evento deve ser bastante concorrido. A preparação do desfile começa com pelo menos duas semanas de antecedência. Nas duas margens da avenida que corta o lado esquerdo da Esplanada são armadas arquibancadas de metal. O módulo central, bem em frente ao Ministério da Defesa, é reservado ao Presidente da República e seu séquito de ministros, generais, almirantes, brigadeiros e demais aspones. Tiras de tecido verde e amarelo são amarrados aos postes de luz, do Planalto até a rodoviária. A Brasília se enche de uma beleza patriótica que faria marejar os olhos de qualquer anarquista.

Ao que parece, todo ano, a Presidência formaliza convite a uma autoridade estrangeira para participar do desfile como convidado de honra. Ano passado, quando a França era a nossa melhor amiga, convidaram o Sarkozy, e os caças supersônicos RAFALE rasgaram o céu do planalto central. Sobrevoaram a minha casa, obrigando-me a levantar antes das nove. Zuniam como balas, deixando atrás de si rastros coloridos - vermelho, azul e branco, as cores da liberdade, da fraternidade e da igualdade, e verde e amarelo, as cores do carnaval nos trópicos. Como a grande maioria das pessoas, fico ranzinza quando sou acordado em finais de semana e feriados. Talvez por isso tenha aberto a janela, olhado para o céu, coçado a bunda e pensado laconicamente, "aviões... rastros de merda... viva..."

Este ano, novamente, cabulei o desfile do sete de setembro. Às cinco da tarde, quando o movimento na Esplanada já tinha se reduzido ao voo rasante do lixo ao vento - paisagem que poderia ser o cenário de um filme de faroeste futurista -, arriscamos fazer uma visita ao Museu da República. Para quem não sabe, aqui na capital existe uma praça chamada Conjunto Cultural da República onde estão instalados a Biblioteca Nacional, o museu mencionado há pouco e uma espécie de tampinha de concreto, em que, tudo leva a crer, Niemeyer planejou a instalção de um café ou restaurante. À imagem e semelhança do Memorial da América Latina, o Conjunto Cultural da República é um mar de cimento salpicado de pequenas manchas negras que um dia, na boca de adolescentes, foram pedaços de babalu e ping-pong. No clima desértico do cerrado, uma visita ao museu ou à biblioteca pode custar ao curioso uma
insolação. A temperatura na praça deve ser pelo menos cinco a dez graus mais elevada que a do resto da cidade. O Conjunto Cultural da República é uma chapa de zinco quente. Niemeyer talvez tenha adequado o projeto à insônia durante a qual foi concebido: um local para ser visitado apenas à noite.

O tema da exposição em cartaz era a arquitetura pós-moderna japonesa. Estávamos bastante animados para apreciar as lendárias soluções nipônicas para a falta de espaço. Quase cegos pelo reflexo do sol no solo lunar do Conjunto Cultural da República, adentramos a sombra da rampa que dá acesso ao segundo andar do Museu. Diante da entrada do térreo, havia dois guardas batendo papo e, atrás deles, uma porta de vidro filmado cerrada. Os dois estavam sentados sobre cadeiras de escritório que me chamaram a atenção justamente por serem do modelo genérico - assento giratório, com rodinhas - e estarem completamente fora do lugar. Por um breve instante, tive a sensação de contemplar o mictório surrealista de Duchamp.

"Boa tarde", disse um deles ao perceber nossa presença. "Boa tarde. A exposição?". O homem tirou o boné e coçou a cabeça suada, "infelizmente está fechada hoje". Contestei, "mas hoje é feriado". Ele confirmou, "justamente. Hoje é feriado e junta muita gente na parada militar". Sem compreender o comentário, indaguei, "e daí?". Ele riu, "e daí que ano passado a gente abriu no sete de setembro e o museu encheu de gente". Ainda sem entender, insisti, "e daí?". Ele riu novamente e com um sorriso pacífico de interior de estado no rosto, concluiu, " e daí que só nós dois não damos conta de tomar conta de tanta gente aí dentro".

Resumo da ópera: no dia 7 de setembro, data em que todo mundo está de folga e se dispõe a visitar o plano piloto para comemorar a data nacional, o Museu da República estava fechado. A justificativa: "junta muita gente". O Brasil que me desculpe, mas esta nossa capital é de chutar o pau da barraca...

27 setembro 2010

censo comum


Na semana passada, havia um aviso no elevador do prédio anunciando que a recenseadora Raquel se encarregaria de entrevistar os moradores do meu bloco. O aviso não indicava data nem horário. Apenas informava que Raquel tocaria a campainha de casa, devidamente uniformizada e cheia de dúvidas Dizia, também, que era obrigação de todo brasileiro responder corretamente às perguntas do censo, pois, agindo assim, corretamente, estaríamos contribuindo para construir um futuro melhor para o Brasil.

Esperamos a semana toda pela Raquel. A campainha nunca soou. Na sexta, havia um bilhete na caixa de correio: "o(a) recenseador(a) __
Raquel____" havia tentado nos encontrar pelo menos duas vezes sem sucesso. "Ela" pedia a gentileza de telefonarmos para para marcar a data e o horário de sua visita. Voltaria especialmente para nos entrevistar. Segundo o bilhete, era obrigação do(a) recenseador(a) visitar todos os moradores da área para a qual havia sido designado(a). Ninguém poderia ficar de fora.

Ligamos para a Raquel ontem de manhã. O telefone tocou uma, duas, três, quatro, cinco vezes. Quando a moça finalmente atendeu, sua voz parecia emergir dos subterrâneos do sono. Disse-lhe meu nome e expliquei quem era. Ela demorou a entender, como se a consciência não estivesse desperta o suficiente para distinguir sonho de realidade. Provavelmente estava de ressaca. Falava arrastado, com dificuldade de articular, o que me pareceu um claro indício que sua língua estava colada aos dentes e às paredes da boca. A saliva, na seca de Brasília, reage com o álcool e produz uma espécie de goma. Mesmo certo de que Raquel teria um dia de merda pela frente - outro efeito colateral do porre brasiliense é a cefaleia lancinante -, sugeri que nos encontrasse em casa, às 14:30. Ela titubeou, concordou e despediu-se com algo semelhante a "enthão, athé de tharde".

Depois do almoço, à espera do censo, deliciei-me com o editorial do Estadão, sentado despoticamente no trono de louça que promove a igualdade entre os homens. Amo a ironia. Mas as páginas seguintes ao mais recente achincalhe à falta de escrúpulos do petismo estragaram o momento, noticiando uma sequência de fatos lamentáveis, como de hábito: a) uma quadrilha de lobistas e políticos corruptos, incluindo o Governador, fraudaram uma licitação milionária no Tocantins; b) os meios de comunicação foram proibidos de divulgar o caso por conta de uma liminar expedida por um desembargador filha-da-putamente obtuso; e c) várias entidades de representação de classe - excluídos os sindicatos pelego-lulistas - protestavam contra os ataques à liberdade de imprensa. Foi o impulso que necessitava para fechar o jornal, higienizar os abismos do corpo, escovar os dentes e bater papo enquanto aguardávamos Raquel.

Ao invés da campainha, soou o telefone. Raquel informou que já havia visitados todos os moradores da 105 sul menos a gente e que, portanto, julgava desnecessário perder tempo conosco. Ela obviamente não estava interessada em construir um futuro melhor para o Brasil. Devia ter acabado de concluir que o vale coxinha que andava recebendo do IBGE não valia a caminhada (e a náusea) debaixo do escaldante sol do cerrado. Perguntei se aquela omissão não caracterizaria algum tipo de "improbidade administrativa" e se a pesquisa não seria prejudicada. Não foi a resposta. Insisti: "tem certeza? Imagine se uma casa a cada quarteirão for ignorada, será que nem assim teríamos um problema?". A reposta foi um não um pouco mais elaborado: "qualquer coisa, a gente completa com a imaginação". E desligou.

Descartado pelo censo como estrume, percebi que ingressava numa das minhas experiências negativas. Um bunda, tão insignificante que não merece nem ser entrevistado pelo censo. Não parece fazer parte das estatísticas brasileiras. Um nada. Moribundo, começava a dar voltas no vicioso círculo da baixa auto estima.

Acontece que aprendi um bocado desde que resolvi perder tempo relatando episódios cinzentos do cotidiano. A maturidade é o momento na vida do burguês em que ele aprende a barrar o princípio de depressão sem a ajuda do zoloft. Bastou refletir um pouco e concluir que Raquel era preguiçosa. A preguiça, versa o censo comum, é a mais brasileira das virtudes.

22 setembro 2010

renascido das fezes

Tenho certeza que o leitor já ouviu falar da Fênix, a ave de fogo que, na mitologia grega, renascia das cinzas. É uma bela metáfora sobre a força e sobre a capacidade do homem de se adaptar às circunstâncias "sem deixar a peteca cair". O Bunda é como a Fênix - um idiota de plantão que, no oco digital do universo, renasce das fezes. Um renascimento sem a mesma beleza lírica, mas igualmente surpreendente.

Renasci, mais uma vez, para detonar a miséria de espírito, a pobreza intelectual, as lambanças que tornam este nosso Brasil uma eterna promessa de futuro e, agora também, a burocracia latu sensu. Voltei, embalado por um grupo de amigos que decidiu se unir para formar uma confraria de escritores em potencial. Ainda não tive a capacidade de me inscrever no e-group criado por eles, mas um dia chego lá. Por meio do facebook soube que um dos nobres quase-literatos leu o primeiro post deste Buraco e ficou bastante impressionado com o veneno com que pintei um retrato íntimo da classe média. Para quem não se recorda, o primeiro textículo do Buraco tratava de maus hábitos anais: papel higiênico, água fria, repúdio ao próprio corpo e contrastes entre aparência e essência. Tenho de admitir que fiquei bem feliz em ser citado num veículo de comunicação tão eficiente quanto o facebook. O fato me deu ganas de voltar a escrever. Prometo (tentar) não deixar a peteca cair de novo.

Todo escritor precisa evoluir na sua arte. Todo amador também. O assunto de hoje não é a classe média, mas a "classe burocrática" de Brasília. A burocracia da capital federal é dividida, grosso modo, em cargos de confiança e funcionários de carreira. Os primeiros são as indicações políticas (DAS) e os outros constituem a categoria dos concursados. Muita gente da turma do DAS veio de São Paulo. Estudaram no Largo São Francisco ou na PUC. A maioria formada em Direito, alguns em economia, relações internacionais e ciências sociais. Lembro-me bem de uma eleição, há alguns anos, quando nosso saudoso Maluf concorria a prefeito. Os setores ilustrados e os setores engajados da "sociedade" se aliaram para desbancar a candidatura do turco ladrão. Foi um momento de epifania democrática na efervescente vida política da zona oeste de São Paulo. Todos juntos contra um inimigo comum. Diferenças "ideológicas" deram lugar ao consenso, e se alguém diminuisse o volume das conversas nos bares da Vila Madalena, era possível ouvir as vozes e os violões de Chico Buarque e Geraldo Vandré embalando a moçada. Ridicularizava-se o argumento fundamental do malufismo - o princípio do rouba, mas faz -, invocando a ideia weberiana de que a atividade política é vocação e não um meio de enriquecimento ilícito. Os setores engajados da "sociedade", arautos da verdade, praticamente-inquisidores, eram os mais veementes críticos da falta de ética no exercício do poder. Estufavam o peito e enchiam a boca para escarafunchar o furúnculo da corrupção.

A imprensa brasileira foi recentemente inundada por denúncias de tráfico de influência e nepotismo contra a Ministra da Casa Civil, Erenice Guerra. O Governo acusou os meios de comunicação de conspiração. A ex-Ministra e Chefe há quinze anos de Erenice, Dilma Roussef, afirmou que "é impossível saber o que todas as pessoas da família fazem", eximindo-se de responsabilidade sobre os delitos cometidos debaixo de sua narina. Algumas publicações rasteiras, em nome da neutralidade jornalística, lançaram reportagens acusando outras publicações também rasteiras de praticarem mau jornalismo, desinformando o público a respeito dos fatos para favorecer a oposição, liderada pelo "candidato tucano e seus demos". A turma do DAS, cujo núcleo duro é o setor engajado da "sociedade", faz coro com tais veículos e, ao invés de apresentar provas que desmintam as denúncias, defende o Governo com base em acusações. Fazem-no com vapor nas retinas e a voz exaltada, a poucos centímetros de perder-se no grito - algo parecido com o que deve ter sido o autoritarismo bolchevique. O "argumento" que mais tenho ouvido é este: "em 98 o PSDB pagou para aprovar a lei que permitiu a reeleição do FHC".

Vamos lá... De minha parte, adoro discutir política, apesar do estresse que esse tipo de discussão provoca. Sou contra a Dilma e contra o PT, ponto final. Faço questão de dizer isso logo de cara. É a deixa para o interlocutor supor que sou tucano ou democrata-demoniáco. Petista tem mania de perseguição, não sei por que. De imediato, surgem argumentos do tipo "em compensação", como o mencionado há pouco. CAGUEI E ANDEI para o PSDB. Quero apenas que me apresentem argumentos convincentes para confirmar o partidão, corrupto e aliado de figuras deploráveis como Sarney, Renan Calheiros e (até hoje fico pasmo) Fernando Collor de Melo, no comando do País por mais 4 anos. Há muitos outros canidadatos além do vampiro. Há, inclusive, uma candidata de origem simples e que, ao contrário do nosso atual Presidente, redentor dos oprimidos, orgulha-se, e muito, da sua educação formal. Digo isso tudo e recebo o seguinte argumento: "dos males o menor". Ou seja: o vampiro é ladrão, a criacionista é despreparada (e crente) e a Dilma, apesar de sua assessoria corrupta, é a solução. Tem cabimento? Não tem.

O ponto onde quero chegar é que a turma do DAS e grande parte do setor engajado da "sociedade" queima a língua, renega o passado e ofende a ética. Votar no PT hoje é, fundamentalmente, igual a votar no Maluf, algo que nos idos da década de 1990 era deplorável, punido no sétimo círculo do Inferno. Prevalece na cabeça do eleitor petista o velho e tosco bordão do turco bandido: "rouba, mas faz". É uma pena.

29 abril 2009

TOQUE

A síndrome do Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOQUE) corrói o cérebro da classe média. Trata-se do mau gosto nos mínimos detalhes. Em tudo o que põem a mão há um toque de refinamento. Por exemplo: a mania de converter nomes mundanos em criações literárias de banca de jornal. Se a fulana tivesse nascido em berço esplêndido – ou de pais minimamente ilustrados no bom senso –, chamar-se-ia Carolina ou Adriana ou Mariana. Como nasceu no subúrbio da cidade grande, numa daquelas casas subtraídas de quintal, cujos portões invadem o passeio público para dar lugar à traseira do carro do ano, financiado em 36 vezes, atende pela graça de Caroline, Adriane, Mariane. A mãe, obesa e loira, excluídas as raízes dos cabelos, e o pai, tatuado, fortinho&foda, escolheram o nome por conta do verniz, como se os sufixos -ane, -ene e -ine denotassem estirpe e fossem muito comuns na literatura francesa do século XIX. A menina cresce idolatrando Xuxa e todos os Genéricos congêneres: Angélica e Eliana na versão infantil, Adriane Galisteu e Luciana Gimenez na versão adulta e Hebe Camargo e Ana Maria Braga na versão senil/esclerosada. Dá escândalo no shopping sempre que passa diante de uma vitrine e identifica o mais novo modelito de sandália assinado por qualquer uma de suas ídolas. A mãe, que não gosta de fazer feio nos almoços familiares de domingo, geralmente realizados na choperia do bairro, ao sabor de galeto de frango, tampouco resiste a comprar o acessório de plástico rosa (no cartão de crédito do marido) para embelezar a filha. No fim de semana, a felicidade vem em dobro: a mãe mostra que não só entende de moda como pode pagar por ela e a menina, fantasiada de boneca de luxo, interpreta, para os parentes e para as demais pessoas presentes no restaurante, a última canção de Ivete Sangalo. Do outro lado da mesa, a madrinha, orgulhosa, bate palmas e comemora, “parece uma atriz mirim!”. O toque pode representar a decadência mais prosaica e feliz. Caroline e Adriane e Mariane cumprirão seu destino e tornar-se-ão putas, senão de fato, pelo menos de espírito.

07 abril 2009

bunda is back!


De fato, Bunda is back. O novo textículo ficou apenas um fim de semana no ar, e já tenho o prazer de degustar um comentário - breve, mas elogioso. Ora, todos gostamos de ser o centro das atenções. Em particular os bundões, que, se não se expõem ao ridículo, ao escárnio de todos, passam integralmente despercebidos, como aparelhos de TV em tardes de domingo. Bundões falam sozinhos, para as paredes. Prestar-lhes atenção é o mesmo que notar algo fora do lugar ou fora de sintonia. Saudações a todos que voltam a se aventurar neste buraco negro.

Passei o almoço de hoje em estado de autismo. Fui convidado pela minha chefe para sentar à mesa junto com funcionários de terceiro e quarto escalões do Ministério vizinho ao nosso e de uma das agências governamentais sediadas no Rio. Predominaram conversas relacionadas a processos burocráticos, ponderações acerca do papel do Estado como fomentador de micro e pequenas empresas e os habituais gracejos sobre a canalhice que corre solta nos Poderes Legislativo e Judiciário. Acompanhei esses tantos assuntos do mesmo bunker de onde degustava, com perplexidade e desconfiança, a comida natural que rendeu ao cardápio do restaurante o direito de ostentar preços, no mínimo, indecentes. Brasília é uma cidade no litoral do lago Paranoá - daí a mania carioca de saúde, magreza e pele cor de cenoura. Restaurantes naturais fazem bastante sucesso nesta praia. Prosperam. Fui incapaz de me engajar na conversação que se desenrolava diante de mim. Já experimentei sensação semelhante no teatro, ao assistir a peças que não me disseram nada ao espírito. Não é por falta de compreensão do que está sendo dito. Tem a ver com uma modalidade de tédio que não é bem tédio, mas completo desinteresse por aquilo que eu poderia dizer caso quisesse dizer algo. Melhor olhar através das palavras, decifrar os pensamentos e as neuroses que os dedos e os ombros das pessoas não sabem camuflar.
Escritores são retratados como autistas nos filmes porque escrever exige mesmo um bom bocado de autismo antes da labuta com a caneta e o teclado. Na vida real, porém, compartilhar refeição com alguém assim é disperdiçar uma hora e meia do dia na companhia de um completo babaca. Não se fazem mais literatos como na ficção de antigamente, apenas bundões e prepotentes orgulhosos.

Acordei do transe quando o garçom me abordou com a máquina do Visa e com a informação de que lhe devia 44 reais e 70 centavos, com serviço. Paguei no crédito para não ter que me deparar com trouxinhas de berinjela recheadas de
cream cheese (crim xisi) e tomate seco até o mês que vem.

04 abril 2009

a volta do malandro


Nesta vida, o tempo passa rápido. Lá se vão dois anos desde o último textículo. A natureza, no entanto, é estática. Como rezam o ditado e a empolgante canção da ex-banda de Carla Perez: pau que nasce torto, nunca se endireita. Tornei-me servidor público; “alto funcionário” do Governo federal. Tenho um salário e uma rotina em Brasília. Burocrática, sem dúvida, mas enfim posso dar-me o luxo de ir ao supermercado e comprar queijo maasdam e vinho do Porto, dois caprichos que outrora me custavam o dinheiro que não tinha. Meus amigos agradecem imenso - finalmente tenho para custear a cerveja de quinta-feira. Aqueles que se diziam amigos não perdem a oportunidade de cobrar-me antigas dívidas que a verdadeira amizade teria tratado de prescrever. Que seja - quem não teme, não deve. A tão almejada estabilidade financeira, situação gozada apenas pelos definitivamente empregados - carteira assinada e dinheiro aplicado -, chegou. Todos os dias, saio de casa engravatado para o trabalho. Por baixo do terno e do orgulhoso aspecto típico dos recém admitidos diplomatas, misto de executivo prodígio com intelectual humanista, o bom e velho bundão. Como disse, a natureza das coisas e das pessoas não muda. Nem perdoa.


Acabo de regressar do primeiro ensaio daquele que virá a ser o mais irreverente bloco carnavalesco de Brasília. Os chegados da repartição tiveram a espirituosa idéia de lançar uma banda de sambas e marchinhas para tornar a idéia de estar condenado à Capital Federal para o resto da vida profissional menos insuportável. Produzimos um barulho terrível, mas bastante animado para uma tarde de sábado chuvosa. Unidos pela alegria e pela batucada, tomamos muita cerveja e comemos muito fandangos. A diversão pode ser simples como bater papo à varanda da casa, diante da piscina com cascata e do jardim meticulosamente aparado. Começo a entender o prazer de alguns em passar a tarde com os amigos da faculdade, diante da grelha em brasas e imerso no dialético debate sobre a santa trindade - mulheres, futebol e cachaça. Afinal, participar de uma banda de samba me torna mais um partícipe daquele abominável universo mental do playboy da Zona Oeste de São Paulo? A princípio, sim. O Rio de Janeiro, porém, há de redimir-me.


O Presidente do bloco, alcunhado “Eternos nesta Brasila” por conta de um vídeo que há muito circula no youtube e retrata um jovem ator global, astro de malhação, dizendo abobrinhas durante festa da high society brasiliense, enriquecida por meio de esquemas de grilagem e corrupção, é carioca. Cariocas também são os homens do tamborim, do pandeiro e do surdo. Ora, se Vinícius de Moraes chamou São Paulo de túmulo do samba não foi à toa. O samba nasceu com o Rio de Janeiro: a cidade é a pátria de todos os mestres desde Noel. O que seria do Bola Preta no fogo cruzado de motoboys da Avenida Paulista? O que seria da Banda de Ipanema na Marginal, desfilando loucura às margens do Rio Pinheiros? Quando um grupo de playboys paulistanos reúne-se com pretensões carnavalescas não se pode esperar mais do que uma solução trivial para cativar a atenção daquelas menininhas que se formaram no colégio junto com eles, mas ainda não foram fisgadas pelo anzol dourado do casamento perfeito. Aqui a coisa é distinta. Meu recente envolvimento com o tamborim explica-se pela empolgação coletiva e de sotaque inconfundível que marcou um almoço de sexta-feira há algumas semanas. Participar do bloco é quase um pressentimento, como tantos outros que vez ou outra perturbam meus pensamentos. Em fevereiro do ano que vem, espero celebrar meu último carnaval no Brasil antes de uma longa década de trabalho e reflexão no exílio. Que seja ao som do tamborim e entre bons amigos sambistas de verrrdade.

16 março 2007

bunda in brasília


Hoje fiquei bem puto. O pagamento do seguro do meu carro atrasou, e fui escalado pra fazer uma vistoria prévia. Os endereços das oficinas que a Porto Seguro me mandou eram todos de cidades satélites, afinal, no Plano Piloto não há um setor automobilístico W3XPTO. Lá fui eu conhecer Guará numa linda tarde de sexta-feira. (A propósito, estou em Brasília.)

Custei pra achar a mecânica, cujo nome é realmente um capricho da função poética da linguagem: AdAUTO Coelho. Adivinhem o nome do dono! Pois ele não estava, e quem me atendeu foi o Fábio. O profissionalismo do rapaz, característica que torna os serviços paulistanos excepcionais e inexiste no Planalto Central, assim como em qualquer parte do Brasil fora do Sudeste, deixou-me contente. Expliquei a ele meu problema, e Fábio, sem titubear, apresentou-me a solução: "vistoria prévia, senhor, é só na própria Porto Seguro, que fica na Asa Norte".

Para quem não conhece Brasília, a cidade tem o desenho de um avião (ou de um passarinho, como queiram). Guará fica a uns quarenta minutos da saída sul, localizada na extremidade da asa sul. O escritório da Porto Seguro, por sua vez, localiza-se na asa norte, a direção, em palavras que apetecem aos pedantes da academia, DIAMETRALMENTE OPOSTA.

Agora, é só fazer as contas: 40 minutos para chegar a Guará, 30 minutos pra achar a AdAUTO Coelho, 20 minutos pra ser informado de que havia me fodido redondamente, 20 minutos pra encontrar a saída de Guará que leva a Brasília (curiosamente, a cidade só tem placas em uma das mãos da avenida; quem segue no sentido contrário está como cego em tiroteio), 40 minutos pra chegar a Brasília e 30 minutos no trânsito das 18 horas (levando em consideração que os segundos piores motoristas do Brasil são os candangos – os primeiros são os soteropolitanos – e que eu me perdi). A soma dá 180 minutos ou 3 horas.

Estou em um momento um tanto quanto delicado da vida. Meu tempo está valendo ouro. Perder a tarde rodando inutilmente debaixo do sol escaldante do cerrado significa pra mim enorme prejuízo. Além da gasolina, deixei de investir horas preciosas nos livros de Direito e Economia. Para agravar ainda mais o quadro, o mau humor com que cheguei em casa foi tamanho que não consegui me concentrar em outra coisa senão a perspectiva de encher a cara de cerveja mais à noite. O dia de estudos foi pro brejo.

Pensando bem, o que mais me emputeceu no dia de hoje não foi Guará nem a atendente da Porto Seguro que me mandou ir lá. Foi o Lúcio Costa. Esse filha da puta inventou a única cidade no mundo onde é possível se perder andando em círculos idênticos. Trata-se de um verdadeiro paradoxo. Como há poucos edifícios em Brasília e sua topografia é plana, o destino a que se quer chegar pode ser visto de praticamente qualquer ponto da cidade. A avenida que leva até ele é também visível. Porém, chegar é impossível. Brasília constitui um labirinto intransponível cuja saída, no entanto, é evidente. E nada no mundo pode provocar mais cólera do que sair de um lugar e retornar a ele indefinidamente. A paisagem que se repete parece querer enlouquecer o motorista, incutindo-lhe vertigens de ódio profundo; os pedestres, reconhecendo o mesmo automóvel passando uma, duas, três, quatro vezes, confirmam para si mesmos, “que perfeito bundão – ou é louco ou é idiota”. Viadutos, rotatórias, retornos – na capital federal, tudo leva ao mesmo ponto: o ponto de partida.

Dizia-se, na Antiguidade, que todos os caminhos levavam a Roma. Hoje, posso dizer quase o mesmo: todos os caminhos levam à puta que pariu Lúcio Costa.

13 janeiro 2007

bobo


Na literatura, são denominadas personagens planos pois não possuem complexidade psicológica alguma. Têm sensibilidade emocional inferior à bauxita, minério de onde é extraído o alumínio, e inteligência questionável, não do ponto de vista do QI – pois em geral escolhem profissões exigentes como a medicina, a engenharia ou, mais comumente, o mercado financeiro –, mas no que se refere à sua incapacidade total para apreender a vida por meio da intuição. Há um trecho do livro Herói Devolvido em que Marcelo Mirisola escreve a respeito de Pepe: “Pepe não era retardado mental porque queria ficar rico e comprar um apartamento em Miami; Pepe era retardado mental porque tinha síndrome de Down”. As bestas às quais me refiro enquadram-se no primeiro caso. Sua doença é a bobeira aguda, agravada pela perspicácia com os números. São cegas para as coisas simples. Levam a sério filmes como “Guerra nas Estrelas”. Mas o pior mesmo é que podem pagar pela verdade, de modo que o desconcerto do mundo resume-se à alta da taxa de juros. Não existe nada mais perigoso para a Humanidade que a demência com milhões no bolso. Personagens planos não são mera fabulação literária. Existem na vida real. São fanáticos por futebol. São os donos da bola.

25 novembro 2006

polaca


A Constituição de 1937, que inaugurou o Estado Novo, ganhou, à época, o curioso apelido de “polaca”. Uma penca de gente deve saber que a alcunha denunciava a ilegitimidade da carta magna. Getúlio Vargas foi ditador e “polaca” significava prostituta. Mas o que as pobres polonesas tinham a ver com o meretrício no Brasil? Tudo e nada.

Desde o início das imigrações européias, no século XIX, polonesas eram célebres no Rio de Janeiro pela beleza alva e, principalmente, pela didática ímpar com que ministravam aulas particulares de francês. A moda no Império era o Velho Mundo e, em particular, a França. Os refinados barões, marqueses e viscondes, apesar dos títulos tupiniquins, vestiam-se à parisiense e usavam corriqueiramente expressões importadas como “bon soir” e “la vie est une grande merde”.

O nacionalismo exacerbado desse período, em que a nação brasileira era ainda um incerto projeto político, tinha os olhos voltados para o exterior e os pés na cozinha. Além de bens materiais, importavam-se idéias, comportamentos e estéticas que, adaptadas às circunstâncias locais – clima tropical, escravidão e imundície –, traduziam-se em paradoxos tipicamente brasílicos. Defendia-se a liberdade como valor universal, por exemplo, ao mesmo tempo em que a ojeriza racial permeava todas as relações sociais, inclusive aquelas de caráter íntimo. Desejava-se a modernidade num país arcaico. Eis que cariocas disputavam até mesmo a bala a expertise das polonesas, conscientes de que o domínio do francês garantir-lhes-ia prestígio nos meios influentes da Corte. Mesmo os nacionalistas mais exaltados dedicaram-se a aprendê-lo, nesse caso, simplesmente para protestar contra a origem lusitana do português, língua de pés-de-chumbo.

Escolas de idiomas logo se espalharam pela capital. A mais famosa delas pertencia à “Barbada”, mulata que ostentava bigode espesso e cavanhaque e recitava sonetos de Shakespeare num idioma semelhante ao inglês. Um anúncio no Jornal do Commércio, de 1876, informa que o slogan dessa respeitada instituição, parafraseando Júlio Verne, dizia “Mafuá da Barbada – volta ao mundo em 180 minutos”. Apenas profissionais do sexo feminino, estrangeiras, asseadas, comunicativas e dispostas a ensinar aquilo que seus países de origem tinham de melhor faziam parte do corpo indecente, isto é, docente. O Mafuá oferecia cursos regulares de quimbundo, tupi, hebraico, espanhol e, disparado o mais concorrido, francês. As aulas, todas com duração de três horas e nem um minuto a mais, contavam com atividades práticas as quais proporcionavam aos alunos não só o aprendizado da língua, mas também dos costumes estrangeiros. Escravas alforriadas davam aula de quimbundo, índias aculturadas, de tupi, cristãs novas, de hebraico, paraguaias refugiadas da guerra, de espanhol, e as encantadoras polonesas, de francês.

Há quem afirme, muito provavelmente com razão, que a “febre do ménage (corruptela de homenagem, certamente à França)”, como ficou conhecida a famigerada endemia de sífilis crônica que castigou o Rio no verão de 1872, tenha-se originado nas dependências do empreendimento educacional da Barbada. De fato, o campus não era lá muito sofisticado: uma velha casa, com cinco alcovas mal iluminadas e um porão, cujo telhado cedia perigosamente (e afinal despencou no ano de 1880, matando a dona e destruindo para sempre tesouros culturais de incalculável valor), localizada no alegre arrebalde que viria a chamar-se Baixada Fluminense. A rotatividade ininterrupta de estudantes aliada à morbidade dos trópicos nos meses de janeiro e fevereiro roubou o sossego, senão a vida, de muitos cavalheiros aspirantes a poliglotas. Em ambientes fechados e úmidos bactérias proliferam-se como gemidos em baile de carnaval. O inocente espirro de algum aluno enfermo que se tenha recusado a manter-se em sua casa, de repouso, bastou para infectar multidões de admiradores das culturas estrangeiras e, indireta e conseqüentemente, suas esposas e os amantes destas. Como o pânico tende a generalizar-se com impressionante rapidez nas cidades, entre os homens, assim como nos galinheiros, entre as galinhas, a febre do ménage logo aterrorizou a sociedade carioca.

A capital do Império, que ainda não se tornara exemplo mundial de urbanização – não contava com sistemas de saneamento básico, de modo que o esgoto doméstico era despejado diretamente nas ruas estreitas ou então transportado em “tigres” (grandes jarros de cerâmica) até a praia mais próxima e, então, lançado ao mar –, registrou, naquele fatídico ano de 1872, o maior êxodo urbano de toda sua história. Livrar-se dos maus ares do Rio era costume muito comum durante o verão. Aqueles que possuíam meios dirigiam-se a Petrópolis, seguindo o exemplo de D. Pedro II e da família real. Aos desvalidos restava a alternativa de mudar de hábitos, saindo menos de casa e evitando as proximidades do porto, onde, dizia-se, as doenças pegavam com maior facilidade. Nada mais entediante (e emburrecedor), contudo, que a manutenção da saúde.

Atualmente, versa o ditado que macho que é macho faz qualquer coisa em nome da virilidade. No século XIX, quando o Brasil era um país irreconhecivelmente mais inteligente, vide o exemplo de Machado de Assis em contraposição a Paulo Coelho, o dito popular enunciava outra verdade mais edificante: culto que é culto sacrifica tudo menos o prazer da erudição. Apesar da sífilis crônica, a freqüentação do Mafuá da Barbada não caiu. Victor Hugo figurava em primeiro na lista dos best-sellers, e a intelectualidade da Baixada estava ávida para lê-lo no original. As professoras polonesas trabalhavam incessantemente, ministrando aulas de manhã, à tarde, à noite e até de madrugada.

A opinião pública condenou a continuidade das atividades do Mafuá. Em tempos de mortalidade elevada, o moralismo endurece. No ano de 1872, condenou até mesmo os mais sérios centros culturais do Império brasileiro. Jornais promoveram ampla campanha de difamação da Barbada e de suas professoras, além de defenderem a extinção de todas as escolas de idiomas cariocas. Panfletos de autoria anônima foram distribuídos nas ruas tachando lingüistas de “gajas diabólicas que vivem para espalhar o mal” e seus locais de trabalho de “antros de imundície e perversão”. As polacas foram alvo privilegiado do ódio popular, pois, uma vez que dominavam o francês e esse era o idioma da moda, supunha-se que mais pessoas haviam infectado com a temida febre do ménage. O vulgo passou a chamá-las de meretrizes, barranqueiras, gulosas e prostitutas, entre outras coisas vis. Como é usual no Brasil, iniciativas que visam a melhorar as condições de vida e educação da população nascem fadadas à falência.

A injustiça contra as polonesas foi assim imortalizada pela ignorância das massas, entorpecidas pela propaganda “civilista” empreendida pelos meios de comunicação conservadores que se proclamavam “guardiões da civilização e da justiça”. Polaca tornou-se sinônimo de puta. Hoje em dia, quase sessenta anos após a morte de Getúlio Vargas, definir o caráter das pessoas em função de sua nacionalidade é politicamente incorreto e constitui preconceito. Prostituta tornou-se categoria supranacional. Quanto à Constituição brasileira de 1988, apesar de democrática, ela é tão injusta quanto a de 1937. Garante aos cidadãos brasileiros o direito a uma vida digna. Mas como tornar essa garantia realidade num país de filhos da puta?

07 novembro 2006

tocaia


Se alguém me acusar de homófobo, quero que se exploda. Veado gosta mesmo é de tocaia. É impressionante a mania que eles têm de embrenharem-se nos matos e nas moitas dos parques da cidade. São sorrateiros como ratazanas, safados como velhos esclerosados comedores do próprio esperma e dissimulados como toda bicha que se preza.

Na calada da noite, ficam ali, à toa, rondando o passeio público. Uns fingem que estão malhando, entusiasmados com a chegada do verão e, claro, com as proporções dos próprios bíceps, outros vacilam, encostados nos postes com cara de baiacu em coma ou dentro de seus automóveis, manuseando o canarinho afoito. Crescem o olho pra cima dos demais passantes como se também participassem da conspiração voluptuosa e imunda que passaram o dia a fantasiar. Acreditam que algo extraordinário pode acontecer. Nada lhes parece mais romântico que uma barrela na trilha: mãos no cascalho, joelhos na relva e rabicó em chamas; merda diluindo-se em sangue e suor enquanto a vítima do estupro consentido alivia-se.

Qualquer gesto involuntário um pouco mais brusco do pedestre incauto será interpretado como resposta afirmativa pelos pervertidos de plantão, como se fosse um código secreto. Em suas cabeças desmioladas, coçar o nariz ou enxugar a testa, por exemplo, equivalem às seguintes palavras de amor e doçura: “vem cá e me prova que você chupa até o caroço”. Qual será o fetiche de copular com estranhos no bosque? Trata-se de bucolismo vampiresco? Será que proporciona frio na barriga correr o risco de atracar-se com soros positivos? É o risco de ser visto que torna essa prática estimulante? Ou será a possibilidade de revisitar Sodoma e Gomorra em pleno parque do Ibirapuera ou Cidade Universitária, se, de repente, todo mundo resolver soltar o frango?

Não entendo mesmo o que se passa. Só sei que, mais de uma vez, tive de reprimir tipos assim durante minhas corridas noturnas. Guarda a piada, imbecil, e engole o sorriso. Tenho estudado o dia todo pra concluir (Deus esteja comigo) o curso de História. Só me sobra tempo pra fazer exercício tarde da noite. Enfim... Você, que insiste em contrariar o que digo, tentando forçar piadas totalmente sem graça a respeito da firmeza da minha predileção sexual, que vá pra puta que o(a) pariu. Não estou com paciência pra isso hoje. Se pudesse me ver, flagraria no meu semblante a mesma expressão de repúdio ameaçador que sou obrigado a vestir quando um desses veadinhos franco-atiradores resolve mirar-me por detrás do famigerado “sorriso mole”. Duas expressões em latim deverão iluminá-lo: mens sana in corpore sano e me cagus un caralium.

Não tenho absolutamente nada contra o homossexualismo, que fique claro. É de domínio público que o sangue da minha nobre linhagem é um verdadeiro bas fond, onde os genes femininos pululam como Marias sem vergonha em beira de brejo. Nem sempre há espaço pro Y no código genético dos meus parentes. Aliás, o mais comum é que esta seja a situação: X X X X X X X X y X X X. Porém, quando ele está presente, sai de baixo! O chumbo é grosso, colega! Dizem que meu tetra-tataravô Alfonso Pinheiro de Amorim Cortez, um dos capitães de Santo Amaro no tempo em que o bairro que conhecemos hoje superava em muito a população da provinciana São Paulo de Piratininga, tinha três testículos. Era tão macho, mas tão macho que, quando passeava pela vila, até mesmo o vento dobrava a esquina para não esbarrar nele. Quando a anomalia veio a ser conhecida de todos os respeitados cidadãos santo-amarenses, por meio de um escândalo envolvendo a negra Carmelita, dama de companhia de minha tetra-tataravó Iolanda, assassinada com dois balaços de arcabuz em circunstâncias até hoje obscuras, vovô Fonsinho fingia que não era com ele. Jamais permitiu que tocassem no assunto na sua frente – o português do armazém quase ficou caolho como Camões por conta de um gracejo infeliz –, mas sentia o mais profundo orgulho daquele respeito absoluto que impunha (e também de sua abastada pochete, é óbvio). Afagava-lhe a virilidade na mesma proporção em que me irritam os veadinhos atrevidos adoradores de Pã que povoam os parques à noite.

Alguém que possa oferecer-me explicações, por favor faça-o logo. Na USP, "as mocinhas" costumam aglomerar nas imediações do prédio da Física. Lá há um bosque onde as crianças inocentemente brincam nas manhãs de domingo. Não me surpreenderia nem um pouco se um dia uma menininha, lambuzando-se gulosamente, convidasse a mãe a compartilhar o chup-chup de leite condensado que achou perto do escorregador.

Essas coisas acontecem. Por isso, essa mania de putaria em parque deve acabar. É indecente, intimidador e imundo – isso soma três I’s: III, como CCC e KKK; por pouco, não corresponde também a SS. Mas deixo o totalitarismo e a violência para os imbecis. Quero mesmo é que se foda.

27 outubro 2006

cruzada fecal


Trata-se de um estudante comum. Caminha pensativo pela Praça do Relógio, em direção à Faculdade de Economia e Administração. Percebe-se pelo seu semblante grave que muitas e complexas idéias atribulam seu pensamento. Jeans e sandálias de couro, guia por baixo da camiseta branca, além de certa ginga carnavalesca, sugerem prontamente que é estudante de humanidades.

Não é, contudo, um típico exemplar da FFLCH. Esse rapaz tem cabelos curtos, a barba feita, roupas novas e limpinhas; em nada se assemelha aos neandertais marxistas ou revolucionários anarco-sindicalistas do Centro Acadêmico. Tem ares esclarecidos, quase revisionistas.

Com certeza não o veríamos em manifestações contrárias à reforma do “espaço aquário”, por exemplo, o chiqueiro no térreo do prédio da História – que mais parece um grande mictório – onde a vanguarda do movimento estudantil reúne-se para mudar o mundo. Ele é usuário da sala de estudos, afeito aos livros e, portanto, ao isolamento acústico. Sabe muito bem que as passeatas e barricadas da esquerda uspiana, formada majoritariamente pelos egressos das escolas particulares da Zona Oeste, são espaços de sociabilidade. Plain and simply, festividades onde todos podem encher a cara sem se sentirem culpados, pois o porre é político. O lema da esbórnia é tão vago quanto patético: “igualdade, justiça social, fim do imperialismo, fora FMI e não se esqueça de VOTAR NULO”. Cerveja, R$ 1.50, vinho, R$ 1.00.

O motivo pelo qual dirige-se à FEA fica assim esclarecido. Quem já visitou a FFLCH provavelmente teve a oportunidade de conferir o estado deplorável de seus sanitários. O estádio do Pacaembu possui dependências mais dignas. Alguns corredores da História lembram as primeiras linhas do célebre Manifesto Comunista, que diz, “um espectro ronda a Europa – o espectro do comunismo”. Fantasmas que fedem a fossa assombram-nos, levantando a suspeita de que a FUVEST deveria aplicar exames psicotécnicos junto com o vestibular.

Geralmente, uma das primeiras coisas que as pessoas aprendem no colégio são as regras básicas da convivência social e da higiene pessoal. Há um cartaz nas escolas primárias canadenses que diz, “All I really need to know I learned in Kindergarten”. Tudo indica que os universitários de humanidades queimaram etapas na pré-escola; não foram introduzidos à civilização. Tudo mesmo. Um passeio rápido pelos reservados da FFLCH revela mijo nas lixeiras, merda esfolada no vaso, cuspe nos cantos, catotas de nariz abandonadas nas paredes como marcas de pneu no asfalto e toda a sorte de obscenidades e racismos rabiscados com caneta BIC.

Fazendo jus à máxima de Walter Benjamim, “nunca houve um monumento da civilização que não fosse também um monumento da barbárie”, a USP, fina flor das instituições de ensino superior, esconde em suas dependências – ou melhor, esfrega na cara e, principalmente, no nariz de seu pessoal – o mais mórbido esgoto: a absoluta falta de educação. Não, nosso herói, que cultiva alma lírica e sensibilidade árcade, jamais conseguiria atingir a plenitude celestial da evacuação em ambiente tão sórdido.

Curioso é o copo plástico vazio que leva consigo. Vai batucando nele enquanto reflete sobre a intimidade e sobre a desastrosa realidade sanitária da FFLCH. Há intimidades moralmente obscenas e intimidades fisicamente imundas – qual será pior? Não chega a formular conclusões. No mesmo instante em que sente fisgar seu intestino delgado, muda de expressão e aperta o passo. O tempo urge, a tripa ruge. Olha com carinho para o copo. Em breve, será seu melhor amigo.

Ao ingressar no prédio da FEA, o bafo frio do ar condicionado refresca-lhe a pressa. Sobe a rampa central e adentra o banheiro masculino. Um eldorado de Pinho Sol descortina-se à sua frente. Ladrilhos impecáveis, sabonete líquido à base de aloe vera (o nome raffiné da tupiniquim babosa), mictórios cuja descarga é acionada pressionando-se pedais no chão, silêncio asséptico. Só falta música ambiente. Mais precisamente, a sonata n. 2 para piano e violoncelo do Rachmaninov.

Sua primeira medida é encher o copinho plástico de água. Depois, apanha um protetor de assento de papel. Tranca-se no reservado central, melhor iluminado. Faz o que tem que ser feito em grande estilo, quase se sentindo em casa. Considera-se o magnata dos infortunados, o marajá do Coco; vivesse no tempo de D. Pedro II, seria o Marquês de Piriri. Pleno, pensa que evacuar deve proporcionar idêntica sensação a visitar o Olimpo. Afrodite, Atena, Hera, Hebe, Ismênia... Um raio de fúria sexual incendeia sua imaginação. O impulso logo morre.

Bukowski dizia que obrar é como escrever poemas, processo em quatro etapas. Primeiro, o poeta enfrenta o incômodo físico da idéia. Conceito sem forma, prenúncio de poema, ela tem necessidade imediata de vencer o plano ideal e ganhar o papel. Segundo, ele deve empenhar-se em realiza-la, trabalhando duro, suando a camisa, forçando conceitos líquidos a adaptarem-se aos duros moldes da métrica e da rima. Terceiro, desfruta o prazer de contemplar sua obra pronta – troféu glorioso, porém descartável. Quarto, desfaz-se do poema como se nunca o houvesse pertencido, acionando a descarga e entregando-o ao leitor.

Terminado o serviço, o copo revela sua utilidade essencial. Só as práticas íntimas revelam se os indivíduos possuem ou não firmeza de caráter. Nosso herói, adepto xiita da limpeza e, portanto, do bidê e do chuveirinho, encharca tiras de papel higiênico, esse triste utensílio imortalizado pela classe média, antes de dar-lhes funcionalidade. Mata, assim, dois coelhos com uma única cajadada: otimiza a eficiência precária do papel e previne o aparecimento precoce da “teimosinha”, leia-se hemorróidas.

Completa-se assim a cruzada fecal. O rapaz observa, com orgulho, as dimensões continentais daquele pedaço de si que generosamente doou à FEA. Presente de socialista esclarecido para capitalista alienado, tem certeza de que outro fefechelento esqueceria de dar descarga de propósito. Consideraria esse lapso uma espécie de manifesto político. Pobre porcalhão.

19 outubro 2006

coprofilia


12/10/06
(apontamentos do meu diário)

Não pode a nossa reles humanidade sonhar com ato mais sublime que ir de corpo. Sentado ao trono, todo servo é rei; obrando, o soberano despe-se de toda sua realeza.
Marquês de Sade

Meu aparelho digestivo funciona de maneira impecável, conduzindo-me ao trono duas vezes ao dia. Os horários em que se manifesta são por volta das três horas da tarde e das nove horas da noite. Há aí uma lógica bastante simples: refeição – peristaltismo – urgência.

Nunca padeci de prisão de ventre. Deve doer. E causa câncer anal. O pai de um colega meu do Ritz teve isso. Morreu em lenta agonia. Além da quimioterapia, submeteu-se a mais terrível cirurgia que pode existir. O seu intestino grosso estava inteirinho tomado pelo “caranguejo”. Os médicos tiveram que lhe extrair o órgão e também o cu. Instalaram uma sonda no lugar, e ele passou a viver preso a sacos plásticos que espontaneamente se enchiam da sua própria merda e tinham de ser trocados três vezes ao dia. Dormia, acordava, banhava-se, almoçava, lia poesia, comia a esposa, tudo acompanhado do aparelho fétido, carinhosamente batizado de “mulatinho”. O velho não perdeu o rebolado com a desgraça. Pelo contrário, brincava que de hemorróidas jamais sofreria de novo. Quando os netos vinham almoçar e anarquizavam a casa, bradava, “caralho, se não pararem com a baderna, vai voar bosta na cabeça de vocês!”. A molecada caía na gargalhada sob os olhares de reprovação dos pais. A doença era apenas um motivo a mais para rir da frágil biologia humana. Mas a alegria durou pouco. O quadro clínico do velho degringolou de repente. No leito de morte, ainda encontrou fôlego para o derradeiro chiste. Anunciou que desejava ser canonizado, pois partia dessa para a melhor praticamente transformado em anjo. “Se é verdade que os mensageiros do Senhor não têm sexo, então é porque também não têm genitália – não cagam nem peidam. A mim, só me faltam asas!”, sentenciou com dificuldade e apagou. Um odor fúnebre dominou o quarto. A família lamentou profundamente o falecimento. Finda a choradeira, o enfermeiro da noite desatarraxou o “mulatinho”. E o velho foi esquecido no dia seguinte à missa de trigésimo dia.

ENFEZADO
adjetivo
1 tomado de raiva, aborrecimento ou birra; irritado
2 de gênio temperamental, irascível
3 que não se desenvolveu; raquítico
4 de dimensões reduzidas; pequeno, acanhado
5 Regionalismo: Brasil.
que empacou (diz-se de animal)

O verbete “enfezado” designa o estado de espírito característico de quem tem prisão de ventre. Literalmente: vísceras abarrotadas de fezes. Daí, o mau humor crônico.

Nas horas em que o dever fisiológico impele-me ao reservado, geralmente estou na USP resolvendo as “pendências acadêmicas” que me fazem refém do terceiro grau há quase seis anos. Isso é realmente constrangedor. Mas esse causo, contarei semana que vem.

Esse utensílio sanitário aí em cima leva o divertido nome de SQUAT TOILET.


07 outubro 2006

desbunde à la conga


Nos anos 1980, ela atingiu o auge de sua carreira como cantora com os hits "Freak Le Boom Boom", "Conga Conga Conga" e "Melô do Piripiri". Hoje, aos 47, Gretchen tornou-se atriz, estrela do longa-metragem La Conga Sex, que deverá ser lançado em novembro. O filme, produzido pela Brasileirinhas, promete picantes cenas de sexo explícito.

Mal posso esperar. Gretchen, como Pelé, é praticamente uma logomarca da cultura de massas brasileira. Um mito. Só que no caso dela, também um mito político. Gretchen foi a criadora da mais sublime forma de protesto político, que, através do fio dental, contestou a tradição e todos os costumes reacionários da moral autoritária. Na Alemanha de Karl Marx, falava-se em vanguarda revolucionária; no Brasil da Mãe Joana, falamos em retaguarda incendiária. Gretchen, no campo da cultura popular, encabeçou o movimento de abertura pós-regime militar.

A década de 1980 foi tempo memorável: além de Gretchen, havia Xuxa, Menudos, Titãs, Paralamas, Trapalhões, jogo do bicho, José Sarney e vários outros carnavais. Uma das maneiras que o país encontrou de exorcizar a censura imposta por tantos anos pela ditadura foi o desbunde. Esta curiosa expressão, que a língua lusitana incorporou do quimbundo, é usada aqui e em Angola para designar estados profundos de êxtase e/ou deslumbramento. De fato, nada foi mais arrebatador e subversivo do que ver a Gretchen sacudir a poupança em rede nacional. Sem sombra de dúvida, ela foi a rainha do desbunde.

Infelizmente, a lógica do capitalismo dá vida curta às manifestações autênticas de cultura. Atentos aos lucros fáceis que a nudez feminina poderia proporcionar a curto e longo prazo numa nação afeita ao futebol, à cerveja e às estripulias eróticas, empresários e produtores trataram de apossar-se do desbunde, esvaziando-o de seu conteúdo explicitamente político. Assim, o que antes era uma modalidade tropical&radical de protesto transformou-se no lugar comum das tardes de domingo e noites de todos os outros dias da semana. As loiras e morenas do axé nada mais são que subprodutos da cultura revolucionária dos anos 1980; distorções grosseiras – ainda que deliciosamente carnudas – da esquerda brasileira.

Há um quê de nostalgia infantil nessa nova superprodução cinematográfica, La Conga Sex. Lembro de cada uma das canções da Gretchen; até hoje elas animam as pistas de dança e embalam a loucura da minha precoce geração, nascida entre 1978 e 1983. Porém, sinto também que “ímpetos políticos” motivam-me a adquirir o filme, quase como se assistir a ele fosse o dever cívico de participar de uma passeata ou manifestação - a mais promíscua manifestação de todos os tempos. Falem a verdade: quem é que não vai até a banca comprar o DVD ou baixa-lo pela internet?

28 setembro 2006

terceiro molar


Diz a ciência que os seres humanos evoluidos nascem sem os terceiros molares, pois, segundo a teoria darwinista, eles já não têm mais função. Diz a sabedoria popular, refutando esta tese, que os terceiros molares anunciam a chegada da maturidade; por isso, são chamados de dentes do siso (siso, com s, significa juízo). Disse o Dr. Paulo Tony quando ergueu contra a luz a radiografia panorâmica da minha boca na manhã de terça-feira da semana passada, “Bunda, vou te contar... Deus foi ingrato mesmo. Ainda bem que este é o último”.

Uma das características que mais prezo nas pessoas é o senso de humor. O sarcasmo descontraído e inoportuno do Dr. Paulo Tony foi encorajador. Minha última experiência odontológica, cinco anos antes, havia sido, digamos... catastrófica. Sentei-me na cadeira da Dra. Loren, uma moça sorridente e amável cuja especialidade, por incrível que pareça, era atender crianças, às 9 da manhã e levantei da cama do hospital Albert Einstein às 6 da tarde do dia seguinte. Numa frustrada tentativa de remover meu siso direito inferior, cuja raiz estava praticamente colada ao osso da mandíbula, perfurou-me uma artéria, provocando um sangramento torrencial e incontrolável.

Minhas recordações desse dia são pontuais porque fiz questão de tentar apagar o episódio do meu disco rígido. Lembro de sair voando do consultório com a boca entulhada de gaze; o elevador custou a chegar e minha mãe se irritou, gritando um palavrão que nunca mais a ouvi pronunciar. Lembro da expressão assustada do médico do Pronto Socorro quando ele removeu a bandagem e o sangue esguichou, grosso, escuro e quente, encharcando minha camiseta branca. Lembro das luzes frias no teto de um corredor extenso se sobrepondo umas às outras com pressa e o ruído de rodas de borracha contra a impressão de um chão liso, que provavelmente acabara de ser lavado. Lembro do instante imediatamente anterior à morte temporária induzida pela anestesia: tubos, máscaras e holofotes.

À infame piada do Dr. Paulo Tony, só pude reagir com desprezo. Mal sabia ele o trabalho pesado que o aguardava. Quem ri por último, ri melhor, pensei com meus botões. Se a coisa era feia na radiografia, ficou horrenda feita a primeira incisão. O Dr. Paulo Tony pagou a língua e suou a camisa, literalmente, pra consertar aquilo que inconseqüentemente classificou de transviado milagre da Providência. Vencida a primeira tarefa de encontrar o dente e entender exatamente de que maneira acrobática ele havia sido enterrado na minha gengiva pelos brejeiros dedos de Deus, o incauto dentista levou ainda mais uma hora e meia para forjar uma passagem por onde o molar pudesse ser retirado e outros vinte minutos extraindo-o.

Como sempre, livrar-me do meu juízo correspondeu a um processo turbulento e vagaroso. Enquanto trabalhava, o Dr. Paulo Tony tentou puxar conversa, discorrendo sobre futebol e um livro de História da Inquisição que havia lido recentemente. (É bem capaz que seu fascínio pela arte da tortura o tenha levado a escolher a carreira de dentista...) Mas não lhe dei trela por dois motivos: 1. com uma broca, um aspirador e cinco dedos na boca é impossível falar; 2. estava intrigado com esse pensamento: quando extraímos os sisos, é como se alguém trocasse pneus dentro da nossa cabeça.

Enfim, depois de horas de martírio e tensão, a operação acabou e fui despachado para casa com sete pontos na boca pelo vitorioso e exausto Dr. Paulo Tony. Passei a semana à base de sorvete, sopa fria, analgésicos e antibióticos. Minha bochecha inchou como um balão. Fiquei parecendo o homem elefante. A dor fulminou meu bom humor, consumiu minhas energias. Sentindo-me um autêntico bunda, resolvi retomar o Buraco. Vamos ver até quando dura o ímpeto...

16 agosto 2006

frits no azeits


Dizia a todo mundo que ela tinha olhos glaciais, como icebergs, e que tais olhos, impossíveis, inimagináveis, haviam vislumbrado tantas dimensões quanto a imaginação turbinada pelas drogas lisérgicas é capaz de produzir. Suas retinas eram círculos de um negrume sólido e contorno preciso, imersas no mar morno do Caribe. A íris, anil como o gelo ártico ou o céu nos trópicos quando o inverno chega e as nuvens rareiam. Icebergs, água marinha, éter...

Descrever coisas demasiadamente belas requer poesia séria – requintes de sutileza, sofisticação intelectual e horas de compenetração para atingir a síntese formal de idéias de potencial inesgotável –, algo que a sua personalidade, alguns meses depois, para a minha infelicidade, revelou-se indigna de merecer.

Por incrível que pareça, a tristeza que envolveu a descoberta de que a número 4 não valia a pena (literalmente, no caso) não teve nada a ver com as perversões da personalidade, tão comuns entre os bípedes. Não foi o irresistível impulso de trair o parceiro e atrair terceiros (peço perdão pelo uso da função poética, empregada aqui com pobreza e em momento inoportuno), o qual, cedo ou tarde, assola qualquer relacionamento, que me impeliu a desistir dela. Tal intenção seria impossível de mascarar sob a cristalina superfície daqueles hipnóticos olhos de vidro; a mágoa é o revés da surpresa.

Não possuo título em psicologia nem sou afeiçoado aos assuntos da medicina, mas posso afirmar com segurança – qualquer um poderia faze-lo, inclusive, já que todos possuímos certos conhecimentos inatos sobre a mecânica do mundo e do comportamento humano – que a número 4 tinha, senão um, dois ou três parafusos a menos. Uma patologia adquirida por anos de dedicação ao consumo desenfreado de substâncias tóxicas, ilícitas e divertidíssimas e, é claro, toda uma complexa conjuntura de antecedentes: instabilidade familiar e predisposição psicológica (na verdade, quase uma necessidade fisiológica) para a insanidade.

Entre as muitas histórias cabeludas que me contou, disse que morou em Londres durante alguns anos, trabalhando como modelo e namorando um DJ que, além de amor, fornecia-lhe toda a sorte de narcóticos, leves e pesados. Foram anos confusos aqueles, relatou, em que os dias fundiam-se uns nos outros como as cartas de um baralho mágico. Nos dias bons, olhava-se no espelho e o reflexo revelava uma frágil boneca de louça branca cujas olheiras eram as sombras de um velho salgueiro. Nos dias ruins, era incapaz de encontrar forças para sair da cama. No pior dos dias, entrou em coma e quase morreu de overdose.

Coisas assim são pesarosas de ouvir, mas divertidas de contar. Não tardou muito e a número 4 recebeu diversos apelidos politicamente incorretos dos meus companheiros de bar, como lóque e frits no azeits – este último, em homenagem ao Mussum, o saudoso Trapalhão alcoólatra. O conselho que não cansava de ouvir: administrar a loucura dos outros é trabalho pra enfermeiro de manicômio...

E não é que eles me convenceram?

11 julho 2006

modernidade

A modernidade está em ruínas desde o século XVI. Camões produziu numerosos versos sobre o desconcerto do mundo. Também Shakespeare, através de Hamlet, refletiu sobre decadência do seu tempo e sobre o prodigioso comportamento humano, capaz de camuflar a essência dos gestos em aparência distinta, furta-cor. Assim como o príncipe da Dinamarca, o Dom Quixote de Cervantes também padecia da deficiência visual típica dos modernos: atestava a lucidez das suas ações não a realidade objetiva, mas a lógica impecável, ainda que completamente absurda, por trás delas. A Renascença descobriu o indivíduo.

De lá pra cá, as coisas mudaram um bocado. Mas o mundo continua de ponta cabeça; só que piorado. Depois que a humanidade inventou a cultura de massas, a filosofia virou motivo de pilhéria. Ao invés das “grandes obras”, o que estimula nossas reflexões existenciais hoje são os livros de auto-ajuda e a imprensa marrom. O campeão de vendas das livrarias brasileiras do último mês: “Quem mexeu no meu queijo”, de autoria de um PhD cujo nome, como os medicamentos genéricos, tanto faz. A capa da revista semanal de atualidades de maior circulação dessa semana: “Como se tornar um grande líder”.

É cristalino como a água que os capitalistas do século XXI estão cada vez mais produtivos e profissionalmente eficazes na mesma proporção em que se assemelham cada vez menos a seres humanos. A nobre invenção dos modernos renascentistas, o indivíduo, evoluiu apenas para revelar que livre arbítrio é o nome poético para a má índole em atividade. O egoísmo é hoje tecnologia de ponta; já as conversas amistosas e o tato nas relações pessoais viraram história. Por isso, os manuais de etiqueta atuais não versam sobre bons modos – tentam educar o espírito neolítico do homem contemporâneo.
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Quatro anos de ensino superior servem para ensinar jovens a ganhar dinheiro e também para esmagar os sonhos coletivos. A estupidez está estampada nas bancas e livrarias e vende aos borbotões. Mas os psicólogos norte-americanos e os jornalistas, intelectuais de grande monta, zelam pelo futuro do mundo. Graças a Deus, há sempre um bunda de plantão para cagar a regra de como as coisas devem ou não ser.

04 julho 2006

tarde de primavera

Todo bundão é individualista por natureza. Individualista – por motivos de economia verbal, usa esse termo no lugar da expressão “o chato que chora quando são contrariadas as suas vontades” para explicar a si mesmo a sua incapacidade insuperável de se relacionar. A consciência só se arrisca no terreno da auto-análise naqueles trágicos intervalos do dia-a-dia em que a depressão torna-se a heróica saída para a mediocridade. O bundão não só é desprezível como tem pena de si mesmo. Durante a infância é mimado, durante a adolescência é niilista – e, não raro, apresenta tendências suicidas –, quando adulto, sua boca dispara críticas contundentes – bem fundamentadas até – contra tudo e todos, enquanto seu espírito amarga estar sempre aquém do Éden prometido pela sua pretensiosa e mirabolante fantasia e, finalmente, na velhice, revela-se homem ranzinza e dono da verdade.
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Aos 76 anos de idade, num apartamento opaco do Real Parque – o único bem que lhe restou das dívidas acumuladas no banco – o bundão falece sozinho no seu quarto de dormir em plena tarde de primavera. Seu corpo só é descoberto três dias depois do óbito, quando já começa a exalar o espesso perfume da morte. A causa? “Derrame cerebral, ataque cardíaco, velhice, desgosto”, comentam os vizinhos indiferentes, mas morbidamente curiosos. “Até que ele era simpático quando chovia...” Mas no velório comparecem somente os parentes mais próximos e aquele único amigo diplomata cuja homossexualidade a vida inteira cegou-o para o fato de que o bundão nunca passou de um bundão que nunca amou ninguém além de si próprio.
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Outra característica muito comum ao bundão é a teimosia. Mete-se a praticar atividades coletivas somente para estragar a festa de todo mundo. Quantos jogos de futebol, por exemplo, não foram suspensos repentinamente porque o dono da bola, bundão da primeira divisão, irritou-se com um lance polêmico e decidiu – por todo o time e pelo adversário – que o campeonato não valia mais a pena? O videogame do bundão é sempre o mais moderno do condomínio porque é também o seu melhor amigo; não existem coincidências fabricadas pelo acaso.
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O bundão cresce, mas não amadurece. E a mania de contrariar as evidências da natureza, essa virtude típica dos anti-heróis que se chama teimosia, persiste. Chega um tempo em que descobre que sua verdadeira vocação é a arte. De todas as modalidades já inventadas, escolhe justamente a mais antiga e fora de moda: o teatro, irremediavelmente coletivo e pouco prestigiado nas plagas brasileiras. O bundão é afeito a encrenca... Além de lidar diariamente, nos ensaios, com um problema, a sociabilidade, que é na verdade uma miríade de problemas, os outros, a recompensa de se ver nacionalmente reconhecido pelo público e pela crítica nunca passará de mera ilusão. Paradoxal e polêmico, não sabe ouvir ao mesmo tempo em que tem a constante impressão de que a sua opinião é sempre a mais original e valiosa. Os outros atores que se rachem! Certa vez, um grande gênio do metier confidenciou-lhe que a gente é feita para brilhar, como as estrelas. “O spotlight só pode iluminar o talento de um único artista”, confirmou o bundão embevecido de vaidade e ambição, louco para brilhar. Seu projeto de vida é ser Deus na Terra – alimenta a silenciosa expectativa de que a fama vai redima-lo da solidão. Não precisa de parceiros, só de competidores. Importa menos o percurso que chegar em primeiro. O bundão não possui o dom primário da brincadeira em grupo, mas, teimoso, insiste. Sem o saber, alimenta o desprezo alheio e encaminha-se para aquele suicídio moroso que culmina com a breve nota no jornal de domingo:
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André Souza Machado Cortez, aos 76 anos. Deixa irmã e sobrinhos. Não deixa saudade.

12 junho 2006

sala de espera

Quem espera sempre alcança, diz o ditado.
A espera é feita de expectativa e decepções.
A espera fortalece o espírito.
A espera torna a realização dos sonhos merecimento.
A espera reduz os gloriosos delírios a pequenos devaneios.
A espera é a prova irrefutável de que as probabilidades são apenas as possibilidades.
A espera acredita que não existe frustração.

Uma lista dessas bem que poderia ser encontrada numa fotocopiadora, impressa sobre papel celeste timbrado com anjos e nuvens. Em dias de ânimo normal, serviria apenas como alvo de escárnio e depois para limpar o rabo. Hoje, porém, o moral deste soldado está como a represa Guarapiranga: abaixo do limite mínimo. A poética lista de máximas, como os versos mais melancólicos e homossexuais do Bandeira, chega até a provocar lágrimas. Nada é mais patético que um Bunda na sala de espera da vida.

05 junho 2006

2o movimento da 7a sinfonia

Aquela mesma cena talvez se repetisse em um milhão de apartamentos durante a madrugada, mas em nenhum deles adquiria sofisticação semelhante. Era impossível ser seletivo na hora de escolher que clipe de vídeo baixar. A infinidade de opções e o colorido dos nomes o obrigavam a clicar em todos os arquivos disponíveis, sem discriminação. Analisava-os conforme eram descarregados no seu computador, antes mesmo de completadas as transferências. Aqueles que não satisfaziam o seu paladar eram prontamente descartados. Era a única maneira de ser criterioso. Não queria entupir a máquina com arquivos mortos, de gosto duvidoso. Excentricidade não é indiscriminação. Tinha preferência pelas morenas de pele clara. Não gostava de cenas explícitas demais, os closes de açougue. Era fundamental que o rosto da mulher aparecesse na tela e ela demonstrasse necessidade sincera e visceral do sexo excessivo que recebia em pancadas. A mecânica da cópula ele entendia bem. Estudava-a com afinco na imaginação e na vida real, aplicando as fantasias adquiridas pela internet e as surgidas espontaneamente nas namoradas que passavam pela sua vida como a água nos córregos. O que lhe parecia mais raro de acontecer eram a sincronia e sintonia de olhares que tornam as palavras necessárias em medida justa, essencial e econômica. Para tanto a cor da pele deveria ser branca e a aureola dos seios, assim como a carne entre as pernas, rosa, quase escarlate. Pelos bem aparados e bicos como botões completavam o quadro ideal. Na tela do computador, essas mulheres não tinham cheiro, mas na sua cabeça assumiam vapores íntimos e inexplicáveis. Descrever odores é tarefa inefável. São como o vinho e só podem ser conhecidos na íntegra se apreendidos pelos sentidos. A razão não serve ao prazer de se deixar levar pela ebulição do sangue. A razão, inclusive, era justamente a faculdade que perdia por completo durante o ritual de varar a noite diante da tela em busca da mulher perfeita. Aquela que julgava digna do seu esperma provavelmente contentaria qualquer outro dos novecentos e noventa e nove mil insones que como ele se masturbavam com a freqüência e a intensidade da compulsão. O que tornava o seu ritual incomum era a trilha sonora. Além do rigor visual, havia o auditivo. O segundo movimento da sétima sinfonia do Beethoven lhe servia de Éden. A sensação de se deitar nas nuvens ou arder no sétimo círculo do inferno. Não saberia explicar – outra descrição inconcebível. Certos conhecimentos da vida são reminiscências. A memória não sabe trabalhar senão pela analogia. Uma vez encontrado o par daquela noite, acionava o media player e inseria os fones do discman no ouvido. De início, o ritmo da cena explícita que engolia os seus olhos não combinava com a melodia. Sua imaginação, no entanto, era pródiga, capaz de ajustar a mais depravada orgia ao imprevisível - porém delicado - (des)concerto da sua fantasia. A mesma cópula era reproduzida mais de três, quatro, cinco vezes; também a sinfonia. O looping se assemelhava às preliminares. Não se considerava pronto para evacuar sua genialidade – esse era outro dado importante: naquele momento, a criatividade tornava suas noites brancas e lhe afligia a alma porque não sabia como exorciza-la a não ser pela pornografia – enquanto seu membro não estivesse devidamente túrgido. Admirava-o como instrumento de poder, inflamado e rijo, veias saltando debaixo da pele como se a qualquer momento pudessem estourar. O calibre do pênis é mais impressionante que o comprimento. O arco que ele descreve lhe atribui caráter. Seu cetro dobrava para baixo e apontava a terra. Achava curioso como a glande aumentava ainda mais de proporção quando constringia o sangramento. Ficava da mesma cor do seu temperamento. Exercitava aquele músculo como se esculpisse algo inédito, como Deus criou o homem a partir do barro, e só ao cabo de quarenta minutos expelia o seu ovo. Aquele pedaço de papel higiênico poderia muito bem ser os lençóis de uma cama king size em Las Vegas. A sofisticação da fantasia tinha um pé no cúmulo do cafona. A capital mundial do jogo lhe parecia a terra natal de todas as musas da madrugada. Tinha a impressão de que eram mais complacentes às suas manias quando se sentiam em casa. De fato, deitavam, rolavam e ficavam de quatro, dizendo atrocidades em inglês. O nome de Deus era, repetidas vezes, pronunciado em vão e até mesmo maldito. Adorava a boca suja das mulheres que elegia, principalmente quando se lambuzavam das sobras dele. O líquido branco jorrava para além do vidro que o circunscrevia à realidade e por todos os lados. O ritual acabava abruptamente. A incontinência do orgasmo na boca delas, sobre o papel e sobre as suas coxas. Uma gota sempre manchava as calças que haviam acabado de voltar da lavanderia. O pingo de vergonha que denunciava a pobreza de espírito daquele gesto. Revelava a preguiça de não terminar a cena da peça, o conto, o roteiro do curta-metragem ou mesmo o trabalho da faculdade. Era difícil de a remover. Só mesmo esfregando com água morna. Ou então delegando a tarefa para a diarista. As empregadas domésticas conhecem todos os segredos sórdidos da classe média. Têm o poder de destruir casamentos e famílias, mas foram educadas para obedecer. A diarista devia saber que ele fazia parte do seleto grupo dos maiores masturbadores da cidade. Devia saber muitas outras coisas. O que ninguém sabia era que ele alimentava a pornografia ao som do segundo movimento da sétima sinfonia.